Anti-herói

25 abr

Relacionar-se com pessoas da mesma idade é empobrecedor, tenho pensado sobre isso. Minhas lembranças quase nunca são visuais, seja por ter olhos claros, ou por timidez, não sei. Por isso, guardo na mente perto de uma centena de sons, ruídos, músicas, vozes, gritos, interjeições, etc. Cresci em meio a anciãos. Tios, avós, primos, eram todos figuras velhas, ou pelo menos, mais velhas do que eu. De toda essa árvore genealógica, o personagem que sempre soou mais nítido foi meu avô.

Dele herdei bons costumes, a maioria auditivos e paladares, era um homem de hábitos polidos. Certa vez, li em algum lugar que as relações  humanas se concretizavam do seguinte modo: pessoas se atraem afetivamente por  outras inversamente proporcionais às suas dimensões físicas. Depois de uns anos, isso passou a fazer bastante sentido… Meu avô era um homem grande, mãos grossas, temperamento abrutalhado, apesar de seus requintes. Ouvia a rádio CBN ao fim da tarde, cerveja antes do almoço, macarrão al dente, Nelson Gonçalves. Lembro do cheiro forte do uísque que saía da sua boca, e também da fragrância musk depois do banho.  Recordo a forma como ele segurava o jornal, do som que os chinelos pesados faziam no corredor, das estórias  sobre os faróis, navios, das medalhas da Marinha…

A grande tragédia – e me refiro ao sentido grego da palavra – da minha infância, teve meu avô como protagonista, devo a ele meu fascínio quase subversivo pelos anti-heróis desde o dia em que o vi mantando uma galinha. Acompanhei todo o rito, primeiro, cortou o pescoço e pendurou-na até que o sangue  escorresse  enquanto ela cacarejava desfalecendo-se, depois  jogou a galinha cadáver numa panela de água quente – o cheiro era forte – então, começou a depená-la. Não me choquei com aquilo, não pensei no sofrimento da galinha, não fechei os olhos,  tampouco me recusei a comê-la na hora do almoço. Aquela tragédia dominical me foi necessária, aquele momento saciou minha curiosidade pela morte. A partir de então tenho reagido muito sensatamente a óbitos, não é frieza, é humanidade da forma mais natural.

Meu anti-herói morreu e hoje penso sobre as lições que ele me deixou. O espólio da herança que me coube: uma inexplicável atração por faróis e,  sem remorsos, a preferência pelos vilões. Adquiri o ceticismo e desconfiança dos velhos, aprendi que ser radical não é uma boa saída, e que a ditadura não foi tão dura assim. Aprendi que comida deve ser tão cuidadosamente escolhida quanto  jóia. Que acordar cedo traz mais disposição, que a gente deve se “formar” antes de casar e, principalmente, que você não pode passar a vida inteira ignorando o fato de que por trás de um delicioso prazer momentâneo há uma variedade de pequenas catástrofes.

Não conversávamos muito, eu e meu vilão, as crianças ficavam sempre às margens dos acontecimentos diários, quase sempre ouvindo bisbilhotando… Ele era o homem mais alto e áspero da família, quando  falava todos calavam, e isso confirmava a teoria dos inversamente proporcionais. Ele nunca soube, mas me condicionou a sentir quase todas as emoções através da observação, e sempre que possível, contê-las. Enxergar e ver. Depois da galinha, dos faróis, do uísque e da CBN, essa foi a melhor lição de todas: o dom do silêncio.

A gente se desentende no instante em que fala.

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