TOLICES
senti uma coisa bater
lá longe
batia
senti uma coisa bater
uma coisa que sem nome
batia
lá longe
devem ser tolices,
dessas que batem ao coração…
TOLICES
senti uma coisa bater
lá longe
batia
senti uma coisa bater
uma coisa que sem nome
batia
lá longe
devem ser tolices,
dessas que batem ao coração…
Publicado em Haikai
Aí vai mais um post desse fotógrafo que admiro imensamente. Não só pelas imagens que registra, mas, principalmente, pela ousadia de mudar o rumo de seus trabalhos, sair da passividade e atuar, verdadeiramente, como um cidadão. Deixando de lado o saudosismo em torno das belezas tropicais e se focando em mostrar que vivemos em um planeta com câncer, onde pessoas estão morrendo de fome e doenças, as culturas e os direito humanos estão sendo esmagados em nome de uma Globalização financeira!
Sebastião Ribeiro Salgado, nascido em Aimorés em 8 de fevereiro de 1944é um fotógrafo brasileiro reconhecido mundialmente por seu estilo único de fotografar. Nomeado como representante especial do UNICEF em 3 de abril de 2001, dedicou-se a fazer crônicas sobre a vida das pessoas excluídas, trabalho que resultou na publicação de 10 livros e realização de várias exposições, tendo recebido vários prêmios e homenagens na Europa e no continente americano. “Espero que a pessoa que entre nas minhas exposições não seja a mesma ao sair” diz Sebastião Salgado. “Acredito que uma pessoa comum pode ajudar muito, não apenas doando bens materiais, mas participando, sendo parte das trocas de idéias, estando realmente preocupada sobre o que está acontecendo no mundo”. (sic)
Na introdução de Êxodos, escreveu:
“Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”
Mais trabalhos:
Trabalhadores (1996); Terra (1997); Serra Pelada (1999); Outras Américas (1999); Retratos de Crianças do Êxodo (2000); Êxodos (2000); O Fim do Pólio (2003); Um Incerto Estado de Graça (2004); O Berço da Desigualdade (2005); África (2007).
Publicado em Fotografia
Feliz Natal!
Se você já é crescido(a) e esperto(a) o suficiente, certamente já sacou que toda essa propaganda frenética em torno do velhinho Santa Klaus só serve pra vender Coca-Cola. Que toda essa tolice em torno de manjedoura, árvore de natal e enfeites são costumes pagãos cultivados por povos anteriores ao Cristianismo – aquela religião imposta pelo Imperador Constantino da Roma antiga, e que, em uma nova roupagem, foram associados ao Christma’s Day e a Jesus Cristo já que a Igreja não tinha como conter os costumes e doutrinas não-cristãs. Dia 25 de Dezembro, caros amigos, foi a data de nascimento do deus Dionísio, aquele que fez seu primeiro milagre transformando água em vinho. Celebre isso! Pois o Natal, jovens, é uma mentira! Mas tudo bem, vamos encher as nossas panças e abraçar friamente amigos e familiares, vender sorrisos gelados e satisfazer a indústria comercial…
…mas, por favor, tenham a dignidade de incitar o senso crítico e a esperteza nos seus filhos, mostre-os a História, a Filosofia, a Antropologia, a Astronomia, a Ciência, os Beatles e Garotos Podres!
Publicado em Audiovisual
Janela Indiscreta
Do outro lado da rua alguém desce apressadamente os três andares da escada. Ainda é cedo. Usando óculos escuros e vestindo uma cara fechada ele entra em um carro preto, com vidros pretos, levando consigo um astral escuro. Pálido. Pelos seus lábios posso ler resmungos…
Liga o carro, liga o ar condicionado e parte. Parte-se.
Dá sinal para a direita. Pega a avenida expressa, engarrafada. O sinal aponta parada. Ele presta atenção no carro ao lado, percebe que o pneu ali vai baixo e vira o rosto noutra direção. Repara na propaganda dos outdoors e nos cartazes clandestinos em muros de terrenos abandonados. Recusa o panfleto do moleque. Sinal verde.
Ele acelera o carro, e parte. Vai seguindo pelas avenidas principais. Parte-se.
De longe avista o prédio da repartição onde trabalha, respira meio que um ar de repulsa. Mas dá luz e desce para a garagem, ali vai devagar à procura de sua vaga de costume. Quando finalmente acha, desliga o carro, desliga o ar-condicionado, fecha o carro e caminha até o elevador. São três andares que duram anos-luz, ele não tira as vistas dos números. 1º andar… 2º andar… 3º andar!
Começa mais um dia de trabalho. E a mim, não cabe a grotesca tarefa de descrever o quão é desestimulante os afazeres desse pobre moço. Sobe elevador, desce elevador, tira cópias, escreve, carimba, digita, despacha, parte, reparte e se parte.
18h. Fim de expediente.
Meu relógio digital sobre a mesa marca 18h25min. Alongo o sopro no café, apago a luz, me aproximo da janela e então, o vejo chegar. 18h26min. Engulo o último gole de café. Ele recolhe pequenos pertences no banco de trás e sai. Bate a porta, tranca o automóvel e entra no prédio. E com a indisposição de espírito de sempre se põe a subir as escadas, raivoso.
[...]
Esperei muito tempo, na verdade um dia inteiro. E agora, às 18h29min, quando as luzes do apartamento da frente se apagam e minha consciência não consegue mais dissimular, é chegada a hora de lhes confessar. A verdade é que não pude enxergar aquele homem por todo o caminho. Dele sei somente da rotina de subir e descer as escadas, pontualmente. Dos caminhos que percorre, das avenidas que trafega, do trabalho que executa, das opções que escolhe? Nada sei. Dele sei apenas o que suponho. Dele somente sei das horas que parte. Julgo-o como se tivesse “cara fechada”. Chamo-o “pálido”, mas nunca o vi de perto pra saber se seu rosto é pálido ou bronzeado. Disseco sua alma como se daqui, de longe, pudesse ouvir resmungos, que a bem da verdade, são cantorias matinais. E ao fim do dia, não o perdoou, inda ouso em dizer que é raiva o que não passa de exaustão por um prazeroso dia de trabalho.
Creio ter ele a desventura de pertencer ao oco. Suponho ser ele o ser apático, pálido. Imagino ser ele o dono dessa minha vida maçante e olhar estéril. Jogo para ele as responsabilidades dos meus atos tolos. Pus lá, naquela janela, o espelho que escancara minha condição vil. Suponho ser ele o cara que, de fato, sou eu. O pálido ser, o ser pálido debruçado sob uma janela indiscreta.
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DILEMA
Entre o crime e o castigo há pecados.
Entre a paz e a guerra, o estopim.
Entre o antigo e o moderno existe o preconceito.
Entre o brilho e a estrela, apresenta-se o passado.
Entre o começo e o fim – caminhos.
Entre a pessoa e a imagem, máscaras.
Entre o amor e o ódio, um triz.
Entre o consenso e a discórdia, o conflito.
Entre o ser e o não-ser: o dilema.
Publicado em Poemas
SOBRE A VELHICE
Desculpe-me a melancolia do tema, mas acho que me sinto assim hoje. O mundo anda tão [mau] que hoje eu nem quis ler o jornal. Tive pesadelos à noite, acordei cansada. Pensei nos desastres que estão acontecendo, e que acontecem há muito tempo. Pensei nos cataclismos, nas grandes e nas pequenas catástrofes. Pensei no choque das placas tectônicas causando tsunamis arrasadores na Oceania, e também pensei que as lagartas que se rastejam hoje no meu quintal, carregando seus casulos nas costas, talvez não consigam bater as asas e voar, quem sabe não se tornem borboletas e permaneçam presas, presas à condição de lagartas melancólicas!
Em meio a essa atmosfera nostálgica fiz muitos planos, planos incomuns, planos de velhice. São tantos “se”, tanta coisa que pode me impedir de alcançar esse estágio de sossego na vida que pode ser inviável refletir sobre isso, mas não há argumentos que me convençam a não fazer meus esboços. Nunca tive medo da velhice, e acho que ela pode ser bárbara! Quando me aposentar vou desistir dos seres humanos, isso pode até acontecer antes, mas lá pelos 65 darei o tiro de misericórdia! Desistir dessas mesquinharias e chatices que é pensar nos almoços em família aos domingos, nos bate-papos inúteis sobre a previsão do tempo com o vizinho, enfim, toda essa porção de coisa-nenhuma que nunca vêm a somar.
Como na canção, quero uma casinha de sapê, pode ser na praia ou no campo. Tem que ter um forno à lenha pra fazer pizza e receber os amigos. Quero um pé de romã. Não quero rotinas, mas planejei meu dia-a-dia, e já que inevitavelmente tudo acaba sendo rotineiro, acho isso que não faz diferença.
Minhas manhãs quero dedicar à terra, areia, adubo, plantas, árvores e raízes. Quero ter uma horta e aquela constante preocupação com as pragas e ervas-daninhas. Durantes as noites vou estudar astronomia e ter por companhia um telescópio com super-lentes, assim, quando o desejo sexual me abandonar serei voyeur dos astros, estrelas, nebulosas e universo. Passarei noites excitantes tendo orgasmos galácticos. As tardes serão puro ócio, deitar e me balançar na rede, ouvir o bom e velho roquenrôu, e aquelas baladas bregas tipo Nando Reis, Marisa Monte e Vanessa da Mata. Ler filosofia, poemas, ensaios, tirinhas, biografias, crônicas e romances. Notícias, jamais! Escrever, escrever muito e com perfeição. Pretendo também, até lá, não mais ter vergonha e quiçá publicar meus contos e poemas. Quero uma pequena e competente biblioteca com livros em edições de capa mole, móveis de madeira escura e envernizada. Vou montar um atelier de esculturas em argila e trabalhar muito nisso. Nos fins de semana quero mergulhar no mar e sair pra comprar cereais, livros nos sebos e chocolates nas lojas. No inverno posso ir à Madri e Roma. No verão à Indonésia e Ilha de Páscoa.
E finalmente, quero me desfazer desse ar meio boçal que todo jovem adulto tem, sempre [achando] que sabe tudo sobre todas as coisas, sempre empurrando com a barriga pequenos problemas do dia-a-dia, sempre arrogante em relação ao que não sabe, sempre tímido sobre o que sabe. Na velhice não quero muitas dúvidas, quero poucas certezas. E quem sabe até lá eu abandone essa ridícula mania de deixar as coisas pra depois, pra depois dos 65!
Publicado em Crônicas
Às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz…
“Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?”
Publicado em Sem categoria
PÔSTERES POLONESES

Yellow Submarine
A Polônia sempre teve na tradição na criação de cartazes com características artísticas. Para esse tipo específico de trabalho de arte, foi criada a expressão Escola Polonesa de Pôster. Entre as características específicas desse movimento estão: sugestão, abreviações, associação de idéias, metaforismo, alusões e subtextos e referências aos instintos primordiais de erotismo, medo e maternidade. Outra característica é que linguagem plástica desses pôsteres é intrigante e às vezes pouco compreensível sem um adequado conhecimento da realidade em que foram criados e de suas analogias históricas.

Um Corpo que Cai
Na década de 50, a distribuição de filmes na Polônia era feita por uma companhia estatal, que não visava lucro como as distribuidoras normais de cinema. Com isso, não foi problema adaptar a divulgação a estética local de cartazes. Sem a preocupação com aspectos comerciais, os artistas produziram trabalhos brilhantes e muitas vezes sem apelo comercial por um grande período, criando verdadeiras obras de arte. Em 1990, com o fim do monopólio estatal, empresas como Warner e Paramount passaram a ter controle da divulgação. Com a liberdade, veio também a necessidade de garantir boas bilheterias com cartazes mais óbvios. Assim, morria a tradição dos pôsteres poloneses.

Um Morto Muito Louco
Hoje a maioria dos filmes é lançada com os mesmos cartazes americanos e poucos designers continuam nessa área. Esses artistas agora criam series limitadas de 300 a 500 cópias de seus trabalhos inspirados em filmes e os vende em galerias, não mais como uma forma de divulgação e sim como obras de arte. (SIC)
Mais cartazes no site Polish Posters!

Um Cão Andaluz
Publicado em Curiosidades
Trabalho incrivelmente criativo, da PESfilm!
Publicado em Audiovisual
Ás vezes me bate um desassossego, um anseio de distanciamento intelectual, uma necessidade de esvaziamento da atividade pensante, sei lá, nessa hora o melhor mesmo seria solicitar férias ao Departamento Pessoal da Atividade Intelectiva*[hã?]. Em muitos momentos chega a ser um enfado esse negócio de ter que ter um critério sobre isso, um juízo pra avaliar aquilo e uma opinião polêmica sobre aquilo outro. Sentir-se embaraçado(a) quando o assunto da mesa do bar é o poder de persuasão de F. Nietzsche em O Anticristo? Ficar ansioso quando constatar que da lista dos dez livros mais vendidos do mês, você leu apenas dois capítulos de um? Devorar o caderno cultural do jornal de domingo pra ficar por dentro das notícias do high intelectual society *? Isso é uma piada total, meu amigo Charles Brown!
Por que fazer questão de vinho tinto se temos cachaça mineira? Pra que ostras ao rum se temos carne de sol com macaxeira? Porque O Carteiro e o Poeta se a gente tem Central do Brasil? Por que jazz e trance se temos bossa nova e choro? RESPOSTA:
:: Expandir o pensamento é fincar raízes ::
Enfim, falava sobre o quê mesmo? Ah! Desassossego. Não quero mais falar sobre atividade intelectual, não quero me aprofundar em filosofia pré-socrática nem preciso tomar partido sobre a teoria do Big Bang! Sou do signo de peixes, não possuo habilidade com as ciências exatas. Bem melhor é falar de alecrim, limão, pimenta, azeite e manjericão, não?
*Designações fictícias, talvez.
SALMÃO DO SOSSEGO

A legenda é a seguinte: "Hummmmm!"
INGREDIENTES:
Sal;
Alecrim;
Limão;
Pimenta;
Azeite;
Manjericão;
MODO DE PREPARO:
Utilize o salmão (ou tainha) inteiro. É importante fazer um corte em cada lateral, para salgá-lo. Misture em um recipiente o suco de três limões pequenos, uma xícara de azeite de oliva, uma pitada de manjericão seco, uma colher de chá de alecrim e pimentas de cheiro cortadas em rodelinhas (a gosto!). Colocar o peixe em uma forma de alumínio e deixá-lo embebido no molho dos condimentos por 10 minutos. Em seguida levar ao forno por 20 minutos. Decore como preferir, recomenda-se limão e tomates. Saborear com uma salada bem colorida. Não há DESASSOSSEGO que resista!
Publicado em Crônicas
A produção textual dos últimos dias foi rala e sem gosto, as críticas andam nada mordazes, as análises um tanto superficiais, e o sarcasmo outrora abundante, hoje anda contido. Mas, já que mesmo pensando em [nada] estamos pensando em alguma coisa, cá estou, ouvindo um charmoso duo de Julieta Venegas e Marisa Monte, e me correm à cabeça idéias, e como sempre, elas vem em muitas e ao mesmo tempo.
O cotidiano tem o poder de roubar-nos a lucidez e, lenta e hipnoticamente, substituí-la por algo bem diferente: realidade. Algo que por ser corriqueiro se torna normal, real, afinal é a realidade, e o que se pode fazer? Cara, essa realidade cotidiana é uma viagem! Um sem-número de coisas está fora do controle e a gente vai se acostumando porque é comum, é banal e é real [?].
Vejo a humanidade sendo desumana, vejo crianças que não são infantis. Reparo que há muito pé-atrás e pouca fé-cega, as mulheres estão muito sagazes e os homens pouco sensíveis. Vejo pobres não sabendo ser humildes e ricos falsificando modéstias. Muito dinheiro e poucos valores, pessoas livres em mentes presas. Não é querer muito, não é esperar que um novo Cristo, Budda, ou Maomé caminhe sobre a terra e fale, olhando nos olhos de cada um, sobre humildade, gentileza e amor. Não é que Gandhi e Mandela precisem re-ensinar suas políticas de paz à Coréia do Norte e EUA. É simples, é só ser simples de coração!
Não há nada pior do que o costume. Acostumar-se com o marido adúltero, acostumar-se em ser mal educado(a), acostumar-se com a mesma pasta de dentes, com os mesmos olhares sob as mesmas coisas, acostumar-se com as opiniões, acostumar-se com o cotidiano. Há que se jogar fora as revistas e jornais velhos, trocar quadros empoeirados por olhares fascinados, abandonar velhas fitas VHS e adquirir discos, quem sabe dos Novos Baianos! Descascar as texturas e pintar as paredes. Recortar, colar, riscar, pintar, atrapalhar um pouco essa mania do branco, interferir nesse caos negativo e elevar o astral. Menos deboche e mais sorriso, menos mentira e mais fantasia, menos rumor e mais barulho! Trocar idéias, trocas as idéias, acreditar mais na sabedoria do que no saber. Usar de sinceridade e elegância. Dar valor aos talentos das pessoas, reverenciar a natureza, acreditar mais, abraçar mais e respeitar muito mais. Afinal do que adianta SER e não HUMANO? Do que adianta um telencéfalo altamente desenvolvido se você não tem polegares opositores?
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Hoje eu acordei meio cansada da prosa, sem paciência de ler prólogos, introduções, manchetes, notícias e notas de falecimentos. Hoje sou errática, hoje estou do lado da poesia. Não uma poesia qualquer, não aquelas do tipo “paixão” rimando com “coração”. Não Vinícius de Morais (adoro o poetinha, mas por hoje não!). Hoje é dia de Augusto dos Anjos, Rimbaud e Baudelaire, hoje quero o deleite da escória, quero rimas cheias de tédio, melancolia, volúpia, vermes, serpentes, luxúria e maldições. Larguei de mão Fernando Pessoa e Clarice Lispector e agarrei-me às Flores do Mal. Optei por um tom mais sombrio, que talvez combine com esse outono.
É HOJE, O DIA “D”! Hoje vou jogar pedra na cruz, vou fugir pra servir a guerrilha Colombiana, hoje sou politicamente incorreta, hoje desprezo o senso-comum. Hoje sou de extrema esquerda, vou aderir a seitas animalescas, negarei o holocausto em horário nobre via BBC, chamarei Maria Madalena de “puta”, Barack Obama de “porco capitalista” e o Papa de “pedófilo-mor”. Hoje vou torturar animais e causar um desastre ambiental. Hoje eu odeio Bossa Nova e não me falem em barquinho nem em violão. Hoje sou Advogada do Diabo e sairei em defesa do casal Nardoni, de Suzane Von Richthoven e de Chico Picadinho. Hoje eu vou sair sem pagar, vou blefar no jogo e subornar o guarda, vou violar a correspondência do vizinho e rir dos bonzinhos. Hoje eu quero que se danem os Direitos Humanos, os pobres, os enfermos, os velhos, os deficientes, os relativamente e os absolutamente incapazes. E de hoje não passa, vou matar o presidente! Amanhã talvez eu acorde melhor… dessa maldita TPM!
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
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De frente à tela do computador, manchada de digitais intrometidas. O ponteiro do cursor a piscar. A ansiosa espera do branco digital por letrinhas que façam algum ou sentido nenhum. O corretor ortográfico à minha disposição e o Aurélio ao alcance das mãos. Levantando a vista reparo no quadro na parede, olhando assim dá pra acusar um monte de detalhes, talvez até uns defeitinhos, de luz, de sombra… nem sei! Mudo a música, mudo o papel de parede, mudo o pensamento, mudo a alma, mudo a cara, mudo tudo, mas não saio do vazio mudo. É verdade que as palavras mentem, mas quando não são ditas perturbam: vide os piscianos! Se essa tela fosse um papel e esse cursor uma caneta de certo estaria toda rabiscada. Primeiro, e pra reafirmar o egocentrismo humano assinaria meu nome, quem sabe mais de uma vez até. Formas geométricas sem métrica formariam uma moldura tosca. Uma tentativa mal acabada de uma flor de lótus bem no meio do papel (que depois seria riscada com força), um castelo medieval sem bandeira no topo, a caneta e a mão que a segura (nesse caso: a minha), uma árvore sem folhas, um botão e um disco voador. E pra não parecer incomum demais: uma casinha de sapê. Isso é um auto-retrato!
E é indo nessa de nada dizer que descubro que sou difícil de ler…
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Nada de Pelé, de Paulo Coelho ou Gisele Bündchen. O brasileiro (tipo exportação) mais importante das últimas décadas é, na minha atenta observação, um fotógrafo chamado Sebastião Salgado.
Trabalhando inteiramente com fotos em preto e branco, o respeito de Sebastião Salgado pelo seu objeto de trabalho e sua determinação em mostrar o significado mais amplo do que está acontecendo com essas pessoas criou um conjunto de imagens que testemunham a dignidade fundamental de toda a humanidade ao mesmo tempo que protestam contra a violação dessa dignidade por meio da guerra pobreza e outras injustiças.
Trabalhos primorosos como o Projeto África (já publicado) e o Gênesis (previsto a conclusão para 2012) têm a missão de conscientizar o planeta sobre as condições de miséria social em que vive as pessoas, bem como fazer o registro de regiões, ainda hoje inexploradas pelo “progresso” humano.
A COMPREENSÃO SEGUNDO JOSÉ SARAMAGO.
Publicado em Fotografia

Estante lego.
As pessoas não têm mais objetivos de vida. Não existe mais a palavra meta. A única ocasião em que a “meta” é inserida é em se tratando de vendas comerciais, campanhas publicitárias e recordes esportivos. O que está em voga é sonhar, as pessoas sonham o tempo todo, inclusive dormindo.
O mundo inteiro só fala nisso. Em todos os canais há incentivos ao sonho: “acredite no seu sonho”, “corra atrás do seu sonho”, “sonhe e acredite que ele se torna real”. Escritores viciados em cafeína estão vendendo a valer e as prateleiras de auto-ajuda estão sempre lotadas. São músicas, livros, mensagens subliminares (e explícitas também), biografias de celebridades, depoimentos de big brothers, incentivos de corredores da São Silvestre, de jovens empreendedores, enfim, sonhar virou coisa tão corriqueira quanto ordinária.
Toda a família se dá por satisfeita: os meninos sonham com bandas de rock (?) emo e as meninas com a faixa de Miss Galáxia de Órion. Foi-se o tempo em que o patriarca incentivava os filhos homens a entrarem na Escola Técnica Federal, e que as mães preparavam o enxoval das filhas mulheres para o ingresso no Internato das Freiras Francesas.
Quando criança eu sonhava com um telescópio, uma viagem ao Camboja (não lembro porque) e um vôo de ultra-leve. Ainda não fui ao Camboja, quase sempre esqueço que quero comprar um telescópio e nunca andei de ultra-leve. Com nove anos de idade toda criança é meio retardada, mas quando adultas as pessoas costumam ser mais retardadas ainda, e o fazem quando fingem para si mesmas que sonham com a prosperidade da economia nacional e com o desenvolvimento sustentável.
Às vezes penso que os problemas do planeta são tão grandes e sem solução que fazer preces pela paz mundial chega a ser extremamente “egoísta”. Gosto de pensar besteira. Pensar assim é pensar como criança, é perturbar a ordem serena do mundo, o que facilita bastante a compreensão das coisas. Seja tolo, não é pecado agir como um abobado nesse meio de cérebros astutos!
Não sobressaio ao vulgo, também tenho sonhos. Penso bastante nos meus sonhos, desejo obsessivamente que se realizem, sonho quando leio o jornal, quando caminho até a padaria em busca de pão-francês, quando acordo e olho para o mar! Sonho é com uma moeda de três lados, um chiclete 24h, um ovo quadrado, uma sinuca de bico, um chocolate Wonka, um táxi pra estação lunar, uma chave-mestra, meias com encaixe pros dedos, um pára-brisa ocular, um trevo de cinco folhas, o assassinato do mouse e uma estante lego!
“O Sonho é Popular!” Eu li isso em algum lugar…
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Fim do Dia
Deixar vir e ir sofrimento e prazer
Não há o que lamentar quando chega o fim do dia
Um cara que anda tem que chegar em algum lugar
Um cara que trabalha, trabalha, trabalha, deve se cansar
O cara estuda tanto e ainda tem tanto pra aprender
Passa o tempo e fica mais fácil esquecer
E não há o que lamentar quando chega o fim do dia…
Publicado em Sem categoria
Tudo está mais nítido em nosso mundo.
Publicado em The Beatles

Falta-me habilidade com os instrumentos de cordas, a percussão não conhece minha fúria e os microfones estão bem afinados sem minhas microfonias. No entanto, gosto de música e sou feliz por esta condição. Há quatro anos, escrevi na última página do caderno do terceiro ano uma lista extensa intitulada “discos que preciso ouvir antes de morrer”. De certo devo ter retirado esse título de alguma ShowBizz da época, mas o fato é que preparei a minha lista de discos a serem ouvidos, enfatizando o antes de morrer.
O tempo passou, e ontem encontrei acidentalmente a dita lista no caderno, customizado com uma capa do John Lennon, tomado pelo mofo. Foi quando fiquei surpresa ao perceber que estava (simplesmente) há dois discos de morrer. Ou seja, dois daqueles asteriscos ainda eram para mim uma interrogação. Eu tinha que agir rápido, e isso é sério. Dedico-me, sempre que lembro, a encontrá-los em sites de downloads e lojas de usados pelas proximidades do afamado Beco da Lama. Talvez não seja tão fácil ver um Echo and Bunnymen do início da década de 80, nem um Talking Heads de 1977 por aí de bobeira. Mas confesso o meu descuido, há tempos não lembrava desses títulos. Entretanto isso não teria a menor desculpa, havia dois discos, que poderiam mudar minha vida, os quais eu não ouvira. E isso seria o suficiente para ela vir me cobrar.
Muitos daqueles sons estão comigo até hoje, vez em sempre os procuro para melhor passar uma madrugada. Uns poucos outros não me entusiasmaram e risquei com caneta vermelha da lista. Os mais especiais fiz duas cópias, pra se por um acaso perder o original ter cópias em caixinhas de papelão. Esses são realmente antológicos. E os mais importantes, os que ainda não ouvi, ainda estão lá listados, só esperando um deslize meu. É, o rock’n’roll tem dessas coisas, meu amigo Charles Brown!
Agora que já tomei uma atitude, tenho um conselho para vender: nunca tripudie de uma superstição, mas seja hábil ao trapacear com o destino. Pois ele sempre manda sua funesta esposa para fazer as devidas cobranças. E com uma listinha em mãos, aposto! E é justo numa ventilada tardezinha de dezembro, às vésperas de um novo e longo período de rotação do planeta Terra ao redor do sol, que ela te encontra desprevenida e vem te roubar o último sopro de vida.
Que a morte, o capeta, os diabinhos, o coisa-ruim e seus seguidores saibam: os dois suspiros de vida que restavam (os dois discos), tratei de encontrá-los bem ligeiro. E pra garantir, já inseri à minha lista oito novos títulos musicais, daqueles bem raros e pouco comerciais, das entranhas undergrounds, que é pra dar bastante trabalho. Creio que desse modo terei uns longos meses de vida pela frente, ou pra ser mais exata, tenho mais oito discos de rock de vida. Por hora, não preciso pensar em um epitáfio para minha lápide.
Então, nem me bata à porta, moribunda!
Publicado em Sem categoria

Os Pássaros
Baseado em conto de Daphne Du Maurier. Um clássico do gênero.
A história aqui é a seguinte: quando a super-loura Melaine Daniels (interpretada por Tippi Hendren) entra em uma loja de animais, conhece o belo e solteiro Mitch Brenner (interpretado por Rod Taylor) de uma forma um pouco inusitada. Ela decide então persegui-lo até Bodega Bay seguida por seu instinto. Só que, ao invés de simplesmente conhecer o rapaz e ter uma bela história de amor, a loira se depara com uma incrível anomalia na cidade; parece que todos os pássaros do local decidiram se revoltar e atacar os humanos quando bem entendem. Na história ainda existem diversos outros personagens, como a irmã mais nova de Mitch, chamada Cathy Brenner (interpretada por Verônica Cartwright, de apenas 13 anos), e a misteriosa Annie Hayworth (interpretada por Suzanne Pleshette), que sofrem todos os medos psicológicos e as dores físicas com os ataques dos pássaros.
Parece superficial? Sim, claro! Inverossímil até, ver um monte de pássaros atacando pessoas, aparentemente sem mais nem menos. E chego a um ponto extremamente importante ao redigir esta análise: a diferença entre esse filme e os demais do Hitchcock. Aqui não há um assassino, e sim uma série de acontecimentos que, ao final, não serão resolvidos! Isso mesmo, não espere que Hitchcock mastigue para você toda a filosofia existente dentro de Os Pássaros. Há um constante tom sobrenatural, e isso ajudou bastante a não haver essa necessidade para o filme. Ele também não tem o famoso ‘The End’, justamente para as pessoas pensarem em tudo o que haviam acabado de assistir. Depois de tudo o que acontece no filme, ele simplesmente acaba.
Publicado em 7ª Arte
Disse que quero café, um puro e simplório café. E a garçonete daquele bistrô temático me veio com dezenas de opções de cafés tão fabulosos quanto impensáveis, como é o caso do expresso descafeinado, achocolatado, adoçado com leite condensado, com uma suave dose de vodka, pitadas de canela em pó e raspas de castanha do Pará sob a espessa camada de chantilly, e pra acompanhar: cookies! Creio que, de fato, eram muito boas as tais bebidas descritas e ilustradas no cardápio. No entanto, gostaria apenas de beber um cafezinho, daqueles bem ‘rudes’, que tem em agências bancárias, repartições públicas, hospitais e canteiros de obra. Cafeína. Café-preto.
Alguém pensou: Nossa! Todas essas opções, coisas tão exóticas, suculentas, baratas até, e você aí, a beber um café, e ponto. Acontece que estou à beira de um abismo que se chama 2000inove e ainda não sei usufruir dessa tal liberdade ridícula. Uso com certa freqüência a palavra “gastura”. Uma sensação de desespero diante de uma situação ridícula a qual sou impotente. E diante desses acontecimentos é gastura o que sinto.
O mau do século não é a heroína, não é a solidão, nem a contaminação por nitrato. O que há de mais ridículo se chama “Liberdade”. Assim mesmo, com letra maiúscula, um nome próprio, um estado de espírito sagrado que beira o divino. Liberdade pra escolher… o que assistir dentre os quatrocentos e setenta e cinco canais da sua TV à cabo, a maior e mais popular das operadoras de telefone celular, o que usar entre várias e variáveis marcas, cores, cheiros e promessas de beleza eterna dos xampus, o mais versátil dos cartões de créditos, prateleiras que não tem fim.
Cuba Libre Señor! Fidel Castro caiu e agora seu irmão Raul leva alegria aos companheiros cubanos, que já podem se hospedar em hotéis de luxo e comprar celulares e iPods. Esse é o tipo de liberdade permitida pelos donos do pálido ponto azul. Mudar. Inovar. Provar todos os sabores. Experimentar todas as cores. Ouvir todas as novidades do rock’n’roll, acessar o myspace em busca de novidades raras. Sintonizar a moda. E é claro, gastar a valer!
Sou tradicional, clássica, démodé, até famigerada, se assim alguém preferir. Prefiro estar presa a minha própria liberdade. Escolher entre ouvir um disco do Frank Zappa ou um do Jimi Hendrix, solos incríveis! Escolher entre uma viagem fantástica de Júlio Verne ou a personalíssima poesia do Fernando Pessoa. Se fosse pintora e precisasse de um estilo seria primitivista, pintaria com a mesma essência do Miró. Se fosse cineasta iria dirigir tentando transpor a mesma tensão de Alfred Hitchcock. A minha personagem seria Dom Quixote, já que é mais instigante duelar com dragões do que com moinhos de vento.
Acontece que nenhum telemarketing me liga oferecendo a obra de Miguel de Cervantes, nem os discos do Hendrix e tampouco pinturas primitivistas. Não me interesso pelo frescor das variedades atuais. Não pedi pra me servirem liberdade, caros senhores da propaganda! Pedi apenas um café preto, que inclusive já terminei.
Café ou água pura.
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