SOBRE A VELHICE
Desculpe-me a melancolia do tema, mas acho que me sinto assim hoje. O mundo anda tão [mau] que hoje eu nem quis ler o jornal. Tive pesadelos à noite, acordei cansada. Pensei nos desastres que estão acontecendo, e que acontecem há muito tempo. Pensei nos cataclismos, nas grandes e nas pequenas catástrofes. Pensei no choque das placas tectônicas causando tsunamis arrasadores na Oceania, e também pensei que as lagartas que se rastejam hoje no meu quintal, carregando seus casulos nas costas, talvez não consigam bater as asas e voar, quem sabe não se tornem borboletas e permaneçam presas, presas à condição de lagartas melancólicas!
Em meio a essa atmosfera nostálgica fiz muitos planos, planos incomuns, planos de velhice. São tantos “se”, tanta coisa que pode me impedir de alcançar esse estágio de sossego na vida que pode ser inviável refletir sobre isso, mas não há argumentos que me convençam a não fazer meus esboços. Nunca tive medo da velhice, e acho que ela pode ser bárbara! Quando me aposentar vou desistir dos seres humanos, isso pode até acontecer antes, mas lá pelos 65 darei o tiro de misericórdia! Desistir dessas mesquinharias e chatices que é pensar nos almoços em família aos domingos, nos bate-papos inúteis sobre a previsão do tempo com o vizinho, enfim, toda essa porção de coisa-nenhuma que nunca vêm a somar.
Como na canção, quero uma casinha de sapê, pode ser na praia ou no campo. Tem que ter um forno à lenha pra fazer pizza e receber os amigos. Quero um pé de romã. Não quero rotinas, mas planejei meu dia-a-dia, e já que inevitavelmente tudo acaba sendo rotineiro, acho isso que não faz diferença.
Minhas manhãs quero dedicar à terra, areia, adubo, plantas, árvores e raízes. Quero ter uma horta e aquela constante preocupação com as pragas e ervas-daninhas. Durantes as noites vou estudar astronomia e ter por companhia um telescópio com super-lentes, assim, quando o desejo sexual me abandonar serei voyeur dos astros, estrelas, nebulosas e universo. Passarei noites excitantes tendo orgasmos galácticos. As tardes serão puro ócio, deitar e me balançar na rede, ouvir o bom e velho roquenrôu, e aquelas baladas bregas tipo Nando Reis, Marisa Monte e Vanessa da Mata. Ler filosofia, poemas, ensaios, tirinhas, biografias, crônicas e romances, notícias jamais! Escrever, escrever muito e com perfeição. Pretendo também, até lá, não mais ter vergonha e quiçá publicar meus contos e poemas. Quero uma pequena e competente biblioteca com livros em edições de capa mole, móveis de madeira escura e envernizada. Vou montar um atelier de esculturas em argila e trabalhar muito nisso. Nos fins de semana quero mergulhar no mar e sair pra comprar cereais, livros nos sebos e chocolates nas lojas. No inverno posso ir à Madri e Roma. No verão à Indonésia e Ilha de Páscoa.
E finalmente, quero me desfazer desse ar meio boçal que todo jovem adulto tem, sempre [achando] que sabe tudo sobre todas as coisas, sempre empurrando com a barriga pequenos problemas do dia-a-dia, sempre arrogante em relação ao que não sabe, sempre tímido sobre o que sabe. Na velhice não quero muitas dúvidas, quero poucas certezas. E quem sabe até lá eu abandone essa ridícula mania de deixar as coisas pra depois, pra depois dos 65!