Ensaio sobre a lucidez

18 dez

Essa noite eu não consegui dormir. Penso que isso é bom, prefiro a lucidez dos olhos abertos. Tenho muitos pensamentos pra pensar, necessito transpor pessoas, ver as coisas correrem mal, correrem bem… Preciso não de perfumes, mas de alguma essência, isso é tão importante! Os sonhos do sono não são justos, nem verdadeiros. Pesadelo desequilibra, sonho angustia. Neles somos invadidos por um sem-número de coisas, e se não houver filtro, percepção nítida, acumulam-se na pele, escondem-se atrás da porta e acamam-se embaixo do travesseiro. Algo em mim estava perdido, hoje encontrei.

combustão de pensamentos tímidos

11 dez

nega-se violentamente

a observar as coisas

em perspectiva livre

gauche

obtusa

dissolvida

Anti-herói

25 abr

Se relacionar com pessoas da mesma idade é empobrecedor, tenho pensado sobre isso. Minhas lembranças quase nunca são visuais, seja por ter olhos claros, ou por timidez, não sei. Por isso, guardo na mente perto de uma centena de sons, ruídos, músicas, vozes, gritos, interjeições, etc. Cresci em meio a anciãos. Tios, avós, primos, eram todos figuras velhas, ou pelo menos, mais velhas do que eu. De toda essa árvore genealógica, o personagem que sempre soou mais nítido foi meu avô.

Dele herdei bons costumes, a maioria auditivos e paladares, era um homem de hábitos polidos. Certa vez, li em algum lugar que as relações  humanas se concretizavam do seguinte modo: pessoas se atraem afetivamente por  outras inversamente proporcionais às suas dimensões físicas. Depois de uns anos, isso passou a fazer bastante sentido… Meu avô era um homem grande, mãos grossas, temperamento abrutalhado, apesar de seus requintes. Ouvia a rádio CBN ao fim da tarde, cerveja antes do almoço, macarrão al dente, Nelson Gonçalves. Lembro do cheiro forte do uísque que saía da sua boca, e também da fragrância musk depois do banho.  Recordo a forma como ele segurava o jornal, do som que os chinelos pesados faziam no corredor, das estórias  sobre os faróis, navios, das medalhas da Marinha…

A grande tragédia – e me refiro ao sentido grego da palavra – da minha infância, teve meu avô como protagonista, devo a ele meu fascínio quase subversivo pelos anti-heróis desde o dia em que o vi mantando uma galinha. Acompanhei todo o rito, primeiro, cortou o pescoço e pendurou-na até que o sangue  escorresse  enquanto ela cacarejava desfalecendo-se, depois  jogou a galinha cadáver numa panela de água quente – o cheiro era forte – então, começou a depená-la. Não me choquei com aquilo, não pensei no sofrimento da galinha, não fechei os olhos,  tampouco me recusei a comê-la na hora do almoço. Aquela tragédia dominical me foi necessária, aquele momento saciou minha curiosidade pela morte. A partir de então tenho reagido muito sensatamente a óbitos, não é frieza, é humanidade da forma mais natural.

Meu anti-herói morreu e hoje penso sobre as lições que ele me deixou. O espólio da herança que me coube: uma inexplicável atração por faróis e,  sem remorsos, a preferência pelos vilões. Adquiri o ceticismo e desconfiança dos velhos, aprendi que ser radical não é uma boa saída, e que a ditadura não foi tão dura assim. Aprendi que comida deve ser tão cuidadosamente escolhida quanto  jóia. Que acordar cedo traz mais disposição, que a gente deve se “formar” antes de casar e, principalmente, que você não pode passar a vida inteira ignorando o fato de que por trás de um delicioso prazer momentâneo há uma variedade de pequenas catástrofes.

Não conversávamos muito, eu e meu vilão, as crianças ficavam sempre às margens dos acontecimentos diários, quase sempre ouvindo bisbilhotando… Ele era o homem mais alto e áspero da família, quando  falava todos calavam, e isso confirmava a teoria dos inversamente proporcionais. Ele nunca soube, mas me condicionou a sentir quase todas as emoções através da observação, e sempre que possível, contê-las. Enxergar e ver. Depois da galinha, dos faróis, do uísque e da CBN, essa foi a melhor lição de todas: o dom do silêncio.

A gente se desentende no instante em que fala.

Desisti da Astronomia

2 fev

Ouvi dizer que os astrônomos têm um pacto com a humildade, que a ciência sideral escancara nossa pequenez.  Percebi nisso um esforço quase perverso de nos manter em repouso, concentrados em uma ética por demais egoísta.

Como poderia eu não sentir soberba ao olhar para um céu infinito, enxergar o brilho magnético de uma estrela, pensar que ela abandonou a própria galáxia e viajou apressada pelo cosmo infinito somente para me trazer sua lucidez? Seria possível não sentir um orgulho grandioso em saber que tal estrela fez tudo isso depois de morta?

Com essas perguntas, já encontrei minhas respostas. Porém, ainda me pergunto: o que pensariam de mim se soubessem da soberba pecaminosa que sinto ao enxergar uma galáxia? Bilhões de estrelas que não me exigem retribuição alguma, apenas morrem para que eu possa apreciar um pouco de brilho e luz, sempre que meu peito se angustiar em perguntas… Desisti da astronomia.

ENSAIO SOBRE O DESAMOR

26 jan

Outra vez a mesma história. A busca inquieta por satisfação, o prazer egoísta, o desejo insano de retribuição. Vertigem, cegueira, vício, lixo, intoxicação.

O rio segue o mesmo curso: riso, prazer, gozo e choro. Paixão é o esgotamento da razão, são seus 99,9% chimpanzé, sobressaindo ao milésimo racional que nos diferenciam. Paixão é mordaz, amor é fugas. Topada, frenesi, colapso, lapso.

Amor retira seus olhos do chão e os assenta em constelação. Amor é anseio. Tudo não passa de ego, implexo, nexo, desfecho. É o caos, é a lama. Amor é ego, paixão é ista.

Egoísta, Egoísta, egoísta, egoísta, egoísta, egoísta, egoísta.

 

Assina: Narrador.

[...]

 

Não, tudo isso está absolutamente incorreto. Na verdade, caro leitor, acima, temos representação poética de um caso autêntico de amor ferido, não correspondido. Percebam as várias tentativas do narrador em expressar sua ira, tentativas desesperadas, e até (pasme!) científicas.  Uma ânsia de ferir com palavras rimadas.

É isso que acontece quando o amor é destratado. Versos mordazes o definem, egoísta é você, narrador! Tanto e a tal ponto que ficaste cego. Por que simplesmente não ofereceste teu amor, sem nada pedir em troca? Por que tiveste a indecência de assassinar a doçura do teu coração?

Engole teu egoísmo, tua vertigem, tua cegueira, teu vício, teu lixo, tua intoxicação. Fica com teu frenesi, teu colapso, teu lapso, teu ego, teu implexo, teu nexo, teu desfecho. Egoísta, egoísta, egoísta, egoísta, egoísta, egoísta.

Do amor, só saberás quando amar.

Assina: Narrador – Daniela Leite, crítica do meu proprio eu-lírico.

 

uma coisa que não tem nome

17 out


Para uma memória anêmica, uma intuição gritante.

Para fazer calar gritos e tons altos, cochichos.

Para um corpo sedentário, esgrima de língua.

Para labirintos sem saída, um esconderijo.

Para uma mente atrapalhada, sutil desassossego.

Para peixe fora d’água, imenso aquário.

Do meu lado, agora em mim.

Na Natureza Selvagem

9 ago


O homem é um chimpanzé. Nasceu de uma mãe e de um pai chimpanzés. Tenho animais dentro de mim, eu sou brutal, instintiva e sagaz.

Construí uma sensação cínica de sensibilidade para aniquilar minha violência. Não sou sensível, mas tento me comover para me assemelhar aos meus ímpares.

Tenho tentado ser humana, bem como me habituar a cortar as unhas dos pés. Eu não penso, apenas associo algumas idéias necessárias à minha sobrevivência.

Tenho pesadelos à noite e grito, urro. Eu me deito sob travesseiros fofos e cheirosos e choro. Choro porque sou selvagem. Chimpanzé.

 

Filha Única

17 jul


A madrugada é minha amante. Vou anoitecer e lhe perguntar os meus segredos.  Sair de mim e pegar esse trem pras estrelas, nem sei pra onde. Transformar as minhas dúvidas em um lençol acolhedor e as mágoas em café quentinho, encher a xícara de um coração vazio.

Essas metáforas todas me cansam, tem alguma coisa de mim se perdendo, muitos pedaços meus estão jogados por aí e exijo que ninguém olhe para o meu chão. Não penso em resgatar coisas velhas, o passado é lixo. Vejo-me mesquinha, trágica e soturna. Ainda não tão cedo, mas ainda assim, quero saber aonde esses meus rastros vão levar.

Há muito tempo eu amanhecia para criticar o mundo, as coisas do mundo e as pessoas com suas coisas e seus mundos. Essa noite foi singular, há horas tentando tirar as cascas das minhas feridas, há horas fingindo que não tenho feridas dentro de mim.

Já está quase a amanhecer e eu preciso me apressar, tenho que me decifrar, encontrar-me em alguma resposta ou talvez me reinventar em uma mentira. Os pássaros já cantam. E estou quase entrando em colapso, tenho os minutos contados para o sol nascer.

Doeu. Uma dor espinhosa, uma repugnância vampiresca, um pânico demasiado… Feriu, entorpeceu e modificou, mas encontrei a minha resposta, ao menos a primeira. Deixei pra lá, talvez isso tudo aconteça somente por eu querer ser filha única.

Amanheci.

Gênesis ou Apocalipse?

20 jun


No começo, eu adorava o cheiro de hortelã das manhãs, agora, mudei de pasta de dentes. Antes eu sentia dó de chutar cachorro morto, até que fui mordida por um. Achava Marisa Monte sensacional, até que descobri Ângela Rô Rô. Eu imaginava que ser mau era feio, li Maquiavel.

Cheguei a defender meu ponto de vista com voracidade, hoje apenas observo. Eu sabia exatamente do que gostava, tudo sistematicamente separado por categorias, agora só o que consigo apontar são as coisas que me trazem repulsa. Já cheguei a ler o prefácio de muitos livros, hoje isso pouco importa. Casei com os Beatles, no entanto assim que joguei o buquê descobri que poderia ser amante do Black Sabath! Sempre deixei a sobremesa por último, agora…

Juro que acreditei na inocência dos bonzinhos, mas vi o capítulo final de Caverna do Dragão. O Holocausto, Hitler e o partido Nazista, pra mim, eram um pacote de brutalidade sem justificativa, então veio Afeganistão e Iraque… O amor era o mais importante, até que me disseram que ele era um meio para se alcançar os fins. Já tentei ler Gênesis, mas me rendo, o Apocalipse me seduziu!

Flores de Plástico

9 mai


Seja cínico. Não tenha compaixão nem vínculos. Seja frio e sagaz. Não deixe uma fresta de sorriso aparecer. Demonstre aquele humor, um tanto quanto cruel. Não tente enxergar o contrário, as flores não têm cheiro! As flores murcham, não há beleza nisso, nem perfume.

Solte as mãos que te seguram, não perdoe ninguém, não espere pelo perdão de ninguém. Critique o que parece sereno, sem razão de ser. Não se conclua. Não, não, não. Negue-se.

O inquisidor jamais se verá pacato, seus pensamentos intranqüilos deixam a sensação de torpor. Assim, nada o acusa. Nada o invade.

Continue fingindo ser tudo isso, o melhor de você são as máscaras. Enquanto os ordinários têm duas – Eros e Thanatus – você terá todas as outras, as outras todas que ninguém mais tem. Respire, pare um momento, e sinta o forte cheiro das flores de plástico.

9 abr

AUSÊNCIA

comecei tentando fazer parar os pensamentos

simulei não querer perguntar

quis fugir das respostas

disfarcei não ouvir

ensaiei o silêncio

fingi

ser

.

para um passarinho.

HAIKAI

1 fev

TOLICES

senti uma coisa bater
lá longe
batia
senti uma coisa bater
uma coisa que sem nome
batia
lá longe

devem ser tolices,
dessas que batem ao coração…

Janela Indiscreta

3 dez

 

Do outro lado da rua alguém desce apressadamente os três andares da escada. Ainda é cedo. Usando óculos escuros e vestindo uma cara fechada ele entra em um carro preto, com vidros pretos, levando consigo um astral escuro. Pálido. Pelos seus lábios posso ler resmungos…

Liga o carro, liga o ar condicionado e parte. Parte-se.

Dá sinal para a direita. Pega a avenida expressa, engarrafada. O sinal aponta parada. Ele presta atenção no carro ao lado, percebe que o pneu ali vai baixo e vira o rosto noutra direção. Repara na propaganda dos outdoors e nos cartazes clandestinos em muros de terrenos abandonados. Recusa o panfleto do moleque. Sinal verde.

Ele acelera o carro, e parte. Vai seguindo pelas avenidas principais. Parte-se.

De longe avista o prédio da repartição onde trabalha, respira meio que um ar de repulsa. Mas dá luz e desce para a garagem, ali vai devagar à procura de sua vaga de costume. Quando finalmente acha, desliga o carro, desliga o ar-condicionado, fecha o carro e caminha até o elevador. São três andares que duram anos-luz, ele não tira as vistas dos números. 1º andar… 2º andar… 3º andar!

Começa mais um dia de trabalho. E a mim, não cabe a grotesca tarefa de descrever o quão é desestimulante os afazeres desse pobre moço. Sobe elevador, desce elevador, tira cópias, escreve, carimba, digita, despacha, parte, reparte e se parte.

18h. Fim de expediente.

Meu relógio digital sobre a mesa marca 18h25min. Alongo o sopro no café, apago a luz, me aproximo da janela e então, o vejo chegar. 18h26min. Engulo o último gole de café. Ele recolhe pequenos pertences no banco de trás e sai. Bate a porta, tranca o automóvel e entra no prédio. E com a indisposição de espírito de sempre se põe a subir as escadas, raivoso.

[...]

Esperei muito tempo, na verdade um dia inteiro. E agora, às 18h29min, quando as luzes do apartamento da frente se apagam e minha consciência não consegue mais dissimular, é chegada  a hora de lhes confessar. A verdade é que não pude enxergar aquele homem por todo o caminho. Dele sei somente da rotina de subir e descer as escadas, pontualmente. Dos caminhos que percorre, das avenidas que trafega, do trabalho que executa, das opções que escolhe? Nada sei. Dele sei apenas o que suponho. Dele somente sei das horas que parte. Julgo-o como se tivesse “cara fechada”. Chamo-o “pálido”, mas nunca o vi de perto pra saber se seu rosto é pálido ou bronzeado. Disseco sua alma como se daqui, de longe, pudesse ouvir resmungos, que a bem da verdade, são cantorias matinais. E ao fim do dia, não o perdoou, inda ouso em dizer que é raiva o que não passa de exaustão por um prazeroso dia de trabalho.

Creio ter ele a desventura de pertencer ao oco. Suponho ser ele o ser apático, pálido. Imagino ser ele o dono dessa minha vida maçante e olhar estéril. Jogo para ele as responsabilidades dos meus atos tolos. Pus lá, naquela janela, o espelho que escancara minha condição vil. Suponho ser ele o cara que, de fato, sou eu. O pálido ser, o ser pálido debruçado sob uma janela indiscreta.

Dilema

7 out

Entre o crime e o castigo há pecados.

Entre a paz e a guerra, o estopim.

Entre o antigo e o moderno existe o preconceito.

Entre o brilho e a estrela, apresenta-se o passado.

Entre o começo e o fim – caminhos.

Entre a pessoa e a imagem, máscaras.

Entre o amor e o ódio, um triz.

Entre o consenso e a discórdia, o conflito.

Entre o ser e o não-ser: o dilema.

Sobre a Velhice

3 out


Velha Desculpe-me a melancolia do tema, mas acho que me sinto assim hoje. O mundo anda tão [mau] que hoje eu nem quis ler o jornal. Tive pesadelos à noite, acordei cansada. Pensei nos desastres que estão acontecendo, e que acontecem há muito tempo. Pensei nos cataclismos, nas grandes e nas pequenas catástrofes. Pensei no choque das placas tectônicas causando tsunamis arrasadores na Oceania, e também pensei que as lagartas que se rastejam hoje no meu quintal, carregando seus casulos nas costas, talvez não consigam bater as asas e voar, quem sabe não se tornem borboletas e permaneçam presas, presas à condição de lagartas melancólicas!

Em meio a essa atmosfera nostálgica fiz muitos planos, planos incomuns, planos de velhice. São tantos “se”, tanta coisa que pode me impedir de alcançar esse estágio de sossego na vida que pode ser inviável refletir sobre isso, mas não há argumentos que me convençam a não fazer meus esboços.  Nunca tive medo da velhice, e acho que ela pode ser bárbara! Quando me aposentar vou desistir dos seres humanos, isso pode até acontecer antes, mas lá pelos 65 darei o tiro de misericórdia! Desistir dessas mesquinharias e chatices que é pensar nos almoços em família aos domingos, nos bate-papos inúteis sobre a previsão do tempo com o vizinho, enfim, toda essa porção de coisa-nenhuma que nunca vêm a somar.

Como na canção, quero uma casinha de sapê, pode ser na praia ou no campo. Tem que ter um forno à lenha pra fazer pizza e receber os amigos. Quero um pé de romã. Não quero rotinas, mas planejei meu dia-a-dia, e já que inevitavelmente tudo acaba sendo rotineiro, acho isso que não faz diferença.

Minhas manhãs quero dedicar à terra, areia, adubo, plantas, árvores e raízes. Quero ter uma horta e aquela constante preocupação com as pragas e ervas-daninhas. Durantes as noites vou estudar astronomia e ter por companhia um telescópio com super-lentes, assim, quando o desejo sexual me abandonar serei voyeur dos astros, estrelas, nebulosas e universo. Passarei noites excitantes tendo orgasmos galácticos. As tardes serão puro ócio, deitar e me balançar na rede, ouvir o bom e velho roquenrôu, e aquelas baladas bregas tipo Nando Reis, Marisa Monte e Vanessa da Mata. Ler filosofia, poemas, ensaios, tirinhas, biografias, crônicas e romances. Notícias, jamais! Escrever, escrever muito e com perfeição. Pretendo também, até lá, não mais ter vergonha e quiçá publicar meus contos e poemas. Quero uma pequena e competente biblioteca com livros em edições de capa mole, móveis de madeira escura e envernizada. Vou montar um atelier de esculturas em argila e trabalhar muito nisso. Nos fins de semana quero mergulhar no mar e sair pra comprar cereais, livros nos sebos e chocolates nas lojas. No inverno posso ir à Madri e Roma. No verão à Indonésia e Ilha de Páscoa.

E finalmente, quero me desfazer desse ar meio boçal que todo jovem adulto tem, sempre [achando] que sabe tudo sobre todas as coisas, sempre empurrando com a barriga pequenos problemas do dia-a-dia, sempre arrogante em relação ao que não sabe, sempre tímido sobre o que sabe.  Na velhice não quero muitas dúvidas, quero poucas certezas. E quem sabe até lá eu abandone essa ridícula mania de deixar as coisas pra depois, pra depois dos 65!

11 set

GuerraÀs vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz…

“Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?”

OBRAS DE ARTE

8 ago

PÔSTERES POLONESES

Yellow Submarine

Yellow Submarine

A Polônia sempre teve na tradição na criação de cartazes com características artísticas. Para esse tipo específico de trabalho de arte, foi criada a expressão Escola Polonesa de Pôster. Entre as características específicas desse movimento estão: sugestão, abreviações, associação de idéias, metaforismo, alusões e subtextos e referências aos instintos primordiais de erotismo, medo e maternidade. Outra característica é que linguagem plástica desses pôsteres é intrigante e às vezes pouco compreensível sem um adequado conhecimento da realidade em que foram criados e de suas analogias históricas.

Um Corpo que Cai

Um Corpo que Cai

Na década de 50, a distribuição de filmes na Polônia era feita por uma companhia estatal, que não visava lucro como as distribuidoras normais de cinema. Com isso, não foi problema adaptar a divulgação a estética local de cartazes. Sem a preocupação com aspectos comerciais, os artistas produziram trabalhos brilhantes e muitas vezes sem apelo comercial por um grande período, criando verdadeiras obras de arte. Em 1990, com o fim do monopólio estatal, empresas como Warner e Paramount passaram a ter controle da divulgação. Com a liberdade, veio também a necessidade de garantir boas bilheterias com cartazes mais óbvios. Assim, morria a tradição dos pôsteres poloneses.

Um Morto Muito Louco

Um Morto Muito Louco

Hoje a maioria dos filmes é lançada com os mesmos cartazes americanos e poucos designers continuam nessa área. Esses artistas agora criam series limitadas de 300 a 500 cópias de seus trabalhos inspirados em filmes e os vende em galerias, não mais como uma forma de divulgação e sim como obras de arte. (SIC)

Mais cartazes no site Polish Posters!

Um Cão Andaluz

Um Cão Andaluz

Animação!

3 ago

Trabalho incrivelmente criativo, da PESfilm!

Ilha das Flores!

22 jul

Polegar Opositor A produção textual dos últimos dias foi rala e sem gosto, as críticas andam nada mordazes, as análises um tanto superficiais, e o sarcasmo outrora abundante, hoje anda contido. Mas, já que mesmo pensando em [nada] estamos pensando em alguma coisa, cá estou, ouvindo um charmoso duo de Julieta Venegas e Marisa Monte, e me correm à cabeça idéias, e como sempre, elas vem em muitas e ao mesmo tempo.

O cotidiano tem o poder de roubar-nos a lucidez e, lenta e hipnoticamente, substituí-la por algo bem diferente: realidade. Algo que por ser corriqueiro se torna normal, real, afinal é a realidade, e o que se pode fazer? Cara, essa realidade cotidiana é uma viagem! Um sem-número de coisas está fora do controle e a gente vai se acostumando porque é comum, é banal e é real [?].

Vejo a humanidade sendo desumana, vejo crianças que não são infantis. Reparo que há muito pé-atrás e pouca fé-cega, as mulheres estão muito sagazes e os homens pouco sensíveis. Vejo pobres não sabendo ser humildes e ricos falsificando modéstias. Muito dinheiro e poucos valores, pessoas livres em mentes presas. Não é querer muito, não é esperar que um novo Cristo, Budda, ou Maomé caminhe sobre a terra e fale, olhando nos olhos de cada um, sobre humildade, gentileza e amor. Não é que Gandhi e Mandela precisem re-ensinar suas políticas de paz à Coréia do Norte e EUA. É simples, é só ser simples de coração!

Não há nada pior do que o costume. Acostumar-se com o marido adúltero, acostumar-se em ser mal educado(a), acostumar-se com a mesma pasta de dentes, com os mesmos olhares sob as mesmas coisas, acostumar-se com as opiniões, acostumar-se com o cotidiano. Há que se jogar fora as revistas e jornais velhos, trocar quadros empoeirados por olhares fascinados, abandonar velhas fitas VHS e adquirir discos, quem sabe dos Novos Baianos! Descascar as texturas e pintar as paredes. Recortar, colar, riscar, pintar, atrapalhar um pouco essa mania do branco, interferir nesse caos negativo e elevar o astral. Menos deboche e mais sorriso, menos mentira e mais fantasia, menos rumor e mais barulho! Trocar idéias, trocas as idéias, acreditar mais na sabedoria do que no saber. Usar de sinceridade e elegância. Dar valor aos talentos das pessoas, reverenciar a natureza, acreditar mais, abraçar mais e respeitar muito mais. Afinal do que adianta SER e não HUMANO?  Do que adianta um telencéfalo altamente desenvolvido se você não tem polegares opositores?

Chega de Felicidade Clandestina!

14 mai

 

faqueiro-de-psicopata

Hoje eu acordei meio cansada da prosa, sem paciência de ler prólogos, introduções, manchetes, notícias e notas de falecimentos. Hoje sou errática, hoje estou do lado da poesia. Não uma poesia qualquer, não aquelas do tipo “paixão” rimando com “coração”. Não Vinícius de Morais (adoro o poetinha, mas por hoje não!). Hoje é dia de Augusto dos Anjos, Rimbaud e Baudelaire, hoje quero o deleite da escória, quero rimas cheias de tédio, melancolia, volúpia, vermes, serpentes, luxúria e maldições. Larguei de mão Fernando Pessoa e Clarice Lispector e agarrei-me às Flores do Mal. Optei por um tom mais sombrio, que talvez combine com esse outono.

É HOJE, O DIA “D”! Hoje vou jogar pedra na cruz, vou fugir pra servir a guerrilha Colombiana, hoje sou politicamente incorreta, hoje desprezo o senso-comum. Hoje sou de extrema esquerda, vou aderir a seitas animalescas, negarei o holocausto em horário nobre via BBC, chamarei Maria Madalena de “puta”, Barack Obama de “porco capitalista” e o Papa de “pedófilo-mor”. Hoje vou torturar animais e causar um desastre ambiental. Hoje eu odeio Bossa Nova e não me falem em barquinho nem em violão. Hoje sou Advogada do Diabo e sairei em defesa do casal Nardoni, de Suzane Von Richthoven e de Chico Picadinho. Hoje eu vou sair sem pagar, vou blefar no jogo e subornar o guarda, vou violar a correspondência do vizinho e rir dos bonzinhos. Hoje eu quero que se danem os Direitos Humanos, os pobres, os enfermos, os velhos, os deficientes, os relativamente e os absolutamente incapazes. E de hoje não passa, vou matar o presidente!  Amanhã talvez eu acorde melhor… dessa maldita TPM!

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

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